Clébson Francisco


  • Viver, viver (ou o dia mais feliz é amanhã)

    Viver, viver (ou o dia mais feliz é amanhã)

    Eu nunca soube comemorar vitórias. No futebol, o gol é a festa. A festa é a redenção dos aflitos, dos que sofrem por antecipação, dos que esperam pelo cruzamento aos prantos. Chorar faz parte do processo, é o momento em que a prisão da virilidade masculina se esvai, a paixão coletiva ganha força e se…

  • Adiar, às vezes, é não querer

    Adiar, às vezes, é não querer

    Sempre odiei os pequenos problemas, as coisinhas pequenas, aquelas coisas rápidas e simples que, na falta de urgência, são deixadas de lado, estacionadas em alguma canto pela casa. Sim, eu sei que elas precisam acontecer. Alguém, e esse alguém geralmente sou eu, terá que fazê-las. O conserto da impressora, as sacolas de roupas e edredons…

  • Carro branco ou reaprender os verbos

    Carro branco ou reaprender os verbos

    Existia um certo ar de calmaria ali. Parecia que eu era feliz numa cidade que eu não conhecia ninguém, que não conversava com ninguém. Tem algo muito bonito no silêncio, algo que sempre admirei e que sempre foi meu conforto. Não tinha quem me ajudasse pra subir os quatro lances de escadas com as compras…

  • eu sou a vírgula do seu carnaval

    eu sou a vírgula do seu carnaval

    eu sou a cor roxa de seu dedo inchadoa linha de 1 milímetro que te corta ao meioeu sou essa sua falta eu sou a areia presa entre os dedos dos pés os pés que se sujam também da lama da chuva e cuspe mijo restos de cerveja cachaça glitter eu sou o abraço forte…

  • Dormir com uma planta debaixo da rede

    Dormir com uma planta debaixo da rede

    Logo quando acordo, tomo um copo d’água. Ponho vírgulas em lugares errados, às vezes de propósito, às vezes sem saber qual lugar elas queriam estar. Erro as conjunções, as sintaxes, as métricas. Às vezes, tento correr atrás das relações de concordância, de subordinação e de ordem. Mas nunca sou prolixo, esmoreço antes mesmo de cansarem…

  • Finja que não me conhece e recomece tudo, de novo

    Finja que não me conhece e recomece tudo, de novo

    Tem sempre uma música que toca na minha cabeça em momentos aleatórios; vem como uma melodia fraca, um zumbido cantado no ouvido. Não sei a letra exata, a pronúncia correta, muito menos, e nessas horas pouca importa a falta de proficiência em línguas estrangeiras. O pingo d’água que bate no metal, o bambu que enverga…

  • Plantas novas, café coado, suor na pele e outras coisas

    Plantas novas, café coado, suor na pele e outras coisas

    Tenho o costume de, a qualquer momento, em qualquer situação, abrir a página do google notícias. Sempre estou na espera de alguma notícia interessante para ler. Leio todas as manchetes de todas as sessões até rodar toda a página inicial: principais notícias, local, Brasil, mundo, entretenimento, negócios, música, moda, fontes, e a mais nova, checagem…

  • Corrida

    Corrida

    Sempre antes de dormir eu escutava um barulho de gente correndo bem perto de mim. Tipo quando você mora numa casa de dois andares, e quando tem alguém no andar de cima andando com a pisada muito forte ou arrastando algum móvel, e tu que está embaixo ouve o som bem alto como um tremor. Pois é, só…

  • Queijadinha ou praia: a gente é feito de despedidas

    Queijadinha ou praia: a gente é feito de despedidas

    Hoje sai com o desejo de praia, mas desconfiança comigo não é pouca, então coloquei o guarda-chuva na mochila. No caminho, a chuva banha a gente de calor, meu braço molhado para fora da janela é o que posso fazer nesse fim de mundo. Nunca mais tomei banho de chuva, os prazeres infantis deixei esquecido…

  • Deitar no chão gelado, ou a felicidade… é

    Deitar no chão gelado, ou a felicidade… é

    Não sinto vontade de abraçar a cidade. Tenho comigo um imenso sentimento de repulsa; talvez fuga, quem sabe… Sentir que você é constantemente repelido é uma sensação complexa e, ao mesmo tempo, solitária. E agora, em que devo cumprir a risca certos contratos já estabelecidos, certas dívidas a pagar, parece que a essa sensação de…

  • Entre o oco, o nada e o vazio: notas sobre arte contemporânea e o direito a não pertencer

    Entre o oco, o nada e o vazio: notas sobre arte contemporânea e o direito a não pertencer

    Um certo circuito de artes visuais, e falo especificamente de uma produção artística de autoria branca, parece ter ficado preso na história da arte institucional do século passado. Esse circuito, fechado, por sinal, esqueceu que para habitar hoje o terreno institucional do museu é necessário no mínimo responsabilidade e senso de partilha. Responsabilidade para com…

  • Uma baleia sorridente no céu de Fortaleza

    Uma baleia sorridente no céu de Fortaleza

    Alergia de lâmina de barbear, comida azeda, roupa lavando na máquina, som de trator na rua. Um canhão do século XVIII que encontraram numa obra do metrô, peças fúnebres, pratos, jarros, porcelanas. Prataria colonial para satisfação de saudosista branco. Tatuagem na perna esquerda e na coxa direita. Coceira insistente da alergia. Saudade de praia, ali…

  • Eu vi quando os olhos se fecharam

    Eu vi quando os olhos se fecharam

    As vezes a sensação é de estar oco, como se nada tivesse acontecendo ali, como se eles fossem membros fantasmas, ou invisíveis. Qual a diferença entre ser um fantasma e ser invisível? Ninguém daqui é realmente daqui. Somos todos estrangeiros, e passageiros também, mesmo que nos comportamos como habitantes natos. É, tem os que sabem…

  • Limpar atrás das orelhas

    Limpar atrás das orelhas

    1 – Corpo O corpo não existe, não tem nada aqui, só o vazio, só o som de explosões e de cortes ágeis e agudos que arranham os ouvidos. O corpo vai acabar, e não tardará muito. Assim como o tempo que não existe, como a cor, como a ficção, o corpo vai acabar. A…

  • Palavras que se esgotam e reaparecem depois de um ato falho

    Palavras que se esgotam e reaparecem depois de um ato falho

    Palavras se esgotam antes mesmo de poderem serem vista. Ser vistas. Serem vista, serem vistas. Qual conjunção correta a se fazer segundo as normas técnicas de condução das palavras? Segundo a gramática, a ortografia, a linguística, estamos todos errados. Todes! Mas eu não escrevo para dar prazer e orgulho a quem me ensino as normas…

  • Lembrei algumas vezes nos últimos dias

    Lembrei algumas vezes nos últimos dias

    Visto um calção verde escuro, mais escuro que o verde-bandeira. Pesquisei agora a diferença entre o lodo e o musgo, e mesmo sem ler completamente os resultados da rápida busca, rapidamente retorno para a pintura incompleta fixada bem na minha frente. Um verde resultante da sobreposição do azul anil e do amarelo ouro, mas um…

  • Ah, então era só isso? Só? (ou como encontrar canetas perdidas)

    Ah, então era só isso? Só? (ou como encontrar canetas perdidas)

    Eu nunca perco as coisas, ou nunca perdia as coisas. Exceto canetas e lápis, óbvio, mas isso todo mundo perde desde o ensino fundamental até fica véi. Só que até as canetas eu parei de perder com o passar dos anos: minha estratégia foi comprar sempre o mesmo tipo e marca de caneta, comprava várias…

  • Sobre abacaxi, canal e meias pretas

    Sobre abacaxi, canal e meias pretas

    Faz um tempo que tento comprar uma máquina fotográfica analógica. Já olhei o catálogo, vi os preços e fiquei de dar resposta. Meses depois volto e peço de novo o catálogo, espero resposta, fico de dar resposta. Aparentemente minha desculpa sempre é a grana, nunca tem sobrando ao ponto desse luxo – sabendo que não…

  • Talvez a gente não precise se comunicar

    Talvez a gente não precise se comunicar

    (Ou como olhar para…) Coloque coisas pra dentro da sua cabeça só até onde dá, só o que couber, mas também coloque aquilo que cê não entendeu ainda. O que vem no fluxo das palavras que chega como inexplicável, que parece ser inalcançável para o seu/meu raciocínio lento. O que vem, absorvo. Entra não porque…

  • Notas para um corpo fugitivo e para uma pressa em andamento [Revista Humanidades & Inovação]

    Notas para um corpo fugitivo e para uma pressa em andamento [Revista Humanidades & Inovação]

    Texto publicado na Revista Humanidades & Inovação v. 7 n. 25 (2020): Corporalidades, narrativas e conhecimentos insurgentes: um dossiê em tempos de intersecções de crises. Tem esse texto que escrevi, que está incompleto, mas já foi publicado. E numa possível futuridade, será republicado com outra escrita, não menos incompleta, não mais avançada, mas com novas…

  • Por tudo que possa te distrair

    Por tudo que possa te distrair

    Nas paredes daqui de casa instalei algumas das bandeiras que fiz nos últimos anos. Num é invocada uma fugaimpossível, noutra a o desejo pela revolta, e outra ainda inacabada mas que já denuncia um corpo precário numa nação violenta. Preguei elas nas paredes tanto para ocupar os espaços brancos desse espaço recém ocupado por mim,…

  • Para não furar o próprio olho

    Para não furar o próprio olho

    Dia 1. Percebeu que consegue olhar diretamente pro sol tapando o olho esquerdo e deixando o direito aberto sem se queimar. Percebeu também que engabelou o próprio cronograma semanal e, pela primeira vez, não teve nem pressa, nem calma, teve somente uma inércia tão grande que parecia doença de rico. Nesse mesmo dia lembrou das…

  • Qualquer ponto da Terra tem seu endereço certo [livro Homo Ludens – A Brasa e o Fanal]

    Qualquer ponto da Terra tem seu endereço certo [livro Homo Ludens – A Brasa e o Fanal]

    Composta por seis textos Homo Ludens – A Brasa e o Fanal é uma publicação que investiga a composição de estratégias e territórios fugitivos através da experiência da escrita. Organização: Flávia Memória e Tarcisio Almeida, com colaborações: Clébson Francisco, Érica Zingano, Flávia Memória, Jamile Cazumbá, Rebeca Carapiá, Tarcisio Almeida, e produção executiva: Natasha Silva Ed.…

  • Loteamento

    Loteamento

    Às vezes é só pelo barulho, pela algazarra, por colocar a cabeça e o braço para fora da janela do ônibus e sentir algo. Pela euforia. Às vezes é por querer ser divino, querer ser carne, querer ser corpo, querer ser transa. Às vezes é por querer habitar em nós. Por não querer ser verbo.…

  • Eu já vi um anjo (ou algo parecido) na porta do meu quarto

    Eu já vi um anjo (ou algo parecido) na porta do meu quarto

    Por vezes eu recebi mensagem de gente amiga dizendo que sonhou comigo. Entendi que estar no sonho das outras pessoas foi a forma que eu encontrei de me fazer presença com gente que tenho um carinho. Não vejo como uma invasão, não, mas como um encontro sem pretenção, expectativas e obrigações. Nunca sei o que…

  • Ninguém me ensinou a cozinhar imagem

    Ninguém me ensinou a cozinhar imagem

    Ninguém me ensinou a cozinhar imagem. Ninguém me disse como por energia numa coisa, trabalhar nela, e esperar que saia algo. E não to falando de ISO, obturador, essas paradas aí que cês aprenderam sei lá onde, mas talvez minha fotometria não está calibrada a capturar espaços brancos e ocos, corpos vazios e olhos vagos.…

  • Não me interessa a distopia-branca

    Não me interessa a distopia-branca

    1. Antes de tudo, não sou brasileiro. Negar essa nacionalidade é essencial para mim. Escrevo como corpo nascido no que prefiro chamar de país ainda não-independente intitulado Nordeste – haverá ainda outro nome pra chamá-lo, enquanto não, uso esse. Habitar o Nordeste é habitar as contradições, e para assumir elas preciso antes anular completamente todo…

  • a semelhança é o vermelho-terroso

    a semelhança é o vermelho-terroso

    em resposta as palavras de Polly, aqui Daqui do sol de 36, do vento quente que vem do ventilador que tem trabalhado mais do que eu, falo tentando respirar. Escrevo desse sol de capricórnio que nos cobre a distância. Desde sempre eu vejo sementes de falso pau-brasil, nem sabia que tinha esse nome até ler…

  • Olhar com os olhos atentos para além dos olhos [texto catálogo Escola Pública de Audiovisual]

    Olhar com os olhos atentos para além dos olhos [texto catálogo Escola Pública de Audiovisual]

    Texto publicado no catálogo da quarta turma do Curso de Realização em Audiovisual, da Escola Pública de Audiovisual Vila das Artes. Com os olhos fechados, sente a água em correria caindo do alto e desabando no rio. Cachoeira longa vazando no tempo. Ao levantar das pálpebras, vê uma muralha de espelhos brotar da terra em…

  • ‘Território Somos Nós’, texto curatorial da exposição

    ‘Território Somos Nós’, texto curatorial da exposição

    Texto curatorial da exposição homônima, em cartaz na Carnaúba Cultural, junho de 2019. Desse canto que a gente vem. Corre notícia que terra preta quando incha d’água brota seres fortes. E de pés cheio de lama, arrasta essa terra escura pelos quatro cantos que apontam o olhos, pelas várias direções que o tempo nos leva…

  • Tu estuda cinema pra quê? – parte 2

    Tu estuda cinema pra quê? – parte 2

    Esse texto é um dos subcapítulos da Introdução da monografia apresentada como conclusão do curso de Cinema e Audiovisual, do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará, defendida em dezembro de 2018. Os buracos ¹ Lembro de ter tido uma aula em que a professora disse algo como: “eu falo aqui sobre…

  • Tu estuda cinema pra quê? – parte 1

    Tu estuda cinema pra quê? – parte 1

    Esse texto é um dos subcapítulos da Introdução da monografia apresentada como conclusão do curso de Cinema e Audiovisual, do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará, defendida em dezembro de 2018. Tornar-se roteirista, ou caminhos para um criador de imagens, ou tornar-se algo¹ Lembro de no fim de 2013 e já…

  • Tempo é…

    Tempo é…

    [Fotografia de barraco no início da ocupação do Pici, bairro de periferia de Fortaleza (CE), anos 80/90. Acervo da Associação de Moradores do Campus do Pici.] Primeiro vejo o breu. Após um instante, meus olhos começam a tentar se acostumar com a fresta de luz que vai adentrando. Logo em seguida, um buraco se abre…

  • cês acham que eu sou idiota?

    cês acham que eu sou idiota?

    Eu tenho tatuado no braço esquerdo o mapa do Ceará, cês acham que eu sou idiota? Já apanhei de espada de São Jorge quando não quis fazer o dever de casa. Cês acham que cresci burro? Estudei em escola pública católica, fazia fila pra tudo, sentava no chão pra rezar a Nossa Senhora e agradecer…

  • Repost: artigo “Cartografias Periféricas”

    Repost: artigo “Cartografias Periféricas”

    Ler o artigo em: http://nobrasil.co/cartografias-perifericas/ CARTOGRAFIAS PERIFÉRICAS Posted on 20|07|2017 in NOBRASIL.CO A ARTE COMO UM DISPOSITIVO DA CONSTRUÇÃO DE UM MAPEAMENTO DA CIDADE. A RELAÇÃO PERIFERIA-CENTRO E DICOTOMIAS SOCIAIS E A INTERCESSÃO CIDADE-ARTISTA.  POR  CLÉBSON OSCAR Primeiramente, uma caminhada Nossa percepção de cidade é limita aos espaços e as rotas que traçamos diariamente: bairro em que mora,…

  • Repost: artigo “A intervenção discurso”

    Repost: artigo “A intervenção discurso”

    Ler o artigo em: http://nobrasil.co/a-intervencao-discurso/ A INTERVENÇÃO DISCURSO Posted on 06|02|2017in NOBRASIL.CO A OBRA DE ARTE EMPREGADA COMO DISCURSO DE RESSIGNIFICAÇÃO DOS ESPAÇOS E DO MEIO URBANO. A INTERVENÇÃO URBANA COMO A PROPOSTA DE UM DISCURSO DE QUESTIONAMENTOS E RESISTÊNCIAS, NÃO SOMENTE DE ARTISTAS, MAS TAMBÉM DA POPULAÇÃO E DE SEU MEIO. POR  CLÉBSON OSCAR A intervenção…

  • Protegido: Carta para você, Wilken

    Não há nenhum resumo porque esse post está protegido.

  • Protegido: CARTA AO SILÊNCIO

    Protegido: CARTA AO SILÊNCIO

    Não há nenhum resumo porque esse post está protegido.

  • Protegido: carta privada wilken misael

    Não há nenhum resumo porque esse post está protegido.

  • é preciso falar sobre saudade – vídeocarta 2014

    A saudade chega, incha o peito, te faz chorar. Pior quando ela quando ela não pode ser saciada fazendo um pacto com a eternidade. E tudo o que resta é quebrar o silêncio, para que pelo menos uma parcela pequena seja saciada por algo que se chama compreensão. Realização: Renan Oliveira e Clébson OscarTrabalho realizado…

  • ” CAMINHOS” – vídeo instalação 2014

    CAMINHOS, vídeo instalação 2014 – Clébson Oscar e Hamille Bezerra CAMINHOS é uma vídeo instalação montada e exposta em novembro de 2014 no Centro Cultural Banco do Nordeste em Fortaleza. Ela surgiu dentro do Laboratório de Cinema de Exposição da faculdade de Cinema e Audiovisual da UFC. Ele constitui-se em um imenso paredão formado por…