Carro branco ou reaprender os verbos

Existia um certo ar de calmaria ali. Parecia que eu era feliz numa cidade que eu não conhecia ninguém, que não conversava com ninguém. Tem algo muito bonito no silêncio, algo que sempre admirei e que sempre foi meu conforto. Não tinha quem me ajudasse pra subir os quatro lances de escadas com as compras do mês, não tinha quem me chamasse para a praia ou quem me levasse no Centro pra comprar roupa naquela loja de 14,99. Aprendi a caminhar por ali fingindo conhecer as ruas, despistando de batedores de carteiras, mochilas e celulares.

Sol forte, sombra de árvores em cada pedaço de rua, suor que seca rápido. Uma vontade de gritar! Não, não, calma, faça só uma 1h de caminhada e tá ótimo. Amanhã é outro dia, e depois outro, e depois outro. Recomece sempre a cada dia. Quem sabe você entra pra academia e perca o medo das pessoas.

Mas não, nunca tive medo da rua, de sair e voltar tarde, de rolês, de voltas, de saídas, dos encontros e das despedidas. O fato é que sempre me negaram os convites antes mesmo de me convidarem por acharem que eu não aceitaria. Balela!

Tem algo muito bonito no silêncio, sabe? Tenho me visto nele. Tem sempre uma lágrima encostada da colina, próxima da ribanceira. Quando acontece, é uma queda fácil, rápida e curta, às vezes imperceptível. Nem sempre cai, por vezes é tomada de assalto e recolhida, retornando para seu casulo, sua morada. O suor cai antes, na dúvida, põem-se a culpa nele, finge-se que foi o calor e não o choro o autor dessa lambança toda no rosto. É, de fato, o calor tem lá suas exaustões. Há uma ardência que sempre ameaça a expulsão das lágrimas, um ardor que prenuncia o choro. Mas não falarei do silêncio; hoje não.

Tem um carro branco no estacionamento ao lado do prédio onde moro; da minha varanda, o vejo próximo a uma árvore, provavelmente pra aproveitar a sombra do dia de sol forte. Já é noite: ele continua ali, eu continuo aqui, ambos num silêncio calmo e fraterno de quem espera pra ser pegue e levado pra bem longe daqui, dali. Também estou de branco, é sexta-feira e, embora eu não tenha essa fé toda, acho importante respeitar as cores da vestimenta, me permito trocar da paleta preta da roupa dri-fit. Meu sofá é branco e na imagem de capa do álbum que toca na televisão tem um carro branco estacionado no alto de um prédio. Atrás desse prédio há outros dois prédios, parece ser uma esquina onde se encontram tantos outros carros, brancos, pretos, cinzas, azul cobalto. Eu também moro numa esquina.

Nessa esquina, ao longo do dia, há uma disputa pela buzina mais alta e por um espaço irrisório; brigam pela rua umas 13 linhas de ônibus, muitos carros desviando o caminho para direções diferentes, uma infinidade de motos que se cruzam, cantam pneus, e ultrapassam sinais vermelhos, tem também a sede de uma empresa de saúde e três estacionamentos. Dois deles pertencem a essa empresa, inclusive o que estou vendo nesse momento, o do carro branco estacionado. Além desse carro branco e de sua sombra não tão útil a essa hora da noite, há também um grande sapotizeiro.

Nunca tirei a carteira, não entendo a lógica de tantos botões e funções que existem num carro e sempre detestei a ideia de ter que pilotar uma moto, mesmo que no tempo de hoje esperam que você já entre na vida adulta sabendo isso. Estive esse tempo todo ocupado em querer ser gente, em me esconder e aprender a crescer, em ser fuga e presença, em ouvir com calma e falar breve. E cada vez mais tenho sido breve, econômico e simples com as palavras, às vezes elas evaporam, somem e se dissipam como fumaça saindo dos ouvidos. Não tenho vontade de corresponder a pressa alheia, você sempre terá tempo de aprender a andar de bicicleta ou de patins, ninguém passou da hora de fazer algo. O tempo é grande, infinito, é lindo.

Bonito também é ele, o silêncio. Eu sei, já falei isso.