Sempre odiei os pequenos problemas, as coisinhas pequenas, aquelas coisas rápidas e simples que, na falta de urgência, são deixadas de lado, estacionadas em alguma canto pela casa. Sim, eu sei que elas precisam acontecer. Alguém, e esse alguém geralmente sou eu, terá que fazê-las. O conserto da impressora, as sacolas de roupas e edredons para doação, os presentes de casamento que ainda não entreguei, a devolução do computador da firma que pagava meu salário até dia desses.
Posso citar muitos desses exemplos espalhados por essa casa, e dentro de mim também. Bloquear um contato, fingir paciência, enviar um e-mail que está no rascunho há meses. Teve uma vez que o ventilador se consertou sozinho, ele simplesmente voltou a funcionar depois de alguns dias parado. Me engano por achar que as demais pequenas e solitárias demandas seguirão o mesmo plano: que elas atuarão por benefício próprio. Mas não, nunca se sabe quais são os seus planos.
Também fazem meses que vou adiando um ofício, deixo ele encostado nos prazos de vigência (ah, tá tudo bem, tenho ainda 12 meses pela frente para executar!). E textos, ah os textos! São tantos, eles que ficam nos rascunhos, como sentimentos aprisionados, adormecidos em berço esplêndido. É sempre assim: parágrafos soltos, pensamentos escassos, dispersos, atenção furtiva, preguiçosa, enganchada na própria percepção. A solução parece simples, basta reunir todos numa única página, criando uma conexão vaga e frases poéticas, nessa tentativa de fazer algum sentido banal (e se fizer, colou!).
É, adiar algo tem muito de não querer.
Hoje instalaram o fogão aqui em casa. Hoje joguei fora uma manga em decomposição. Hoje senti saudade do futuro. E me vi, mais uma vez, desabar no conforto de um sofá branco coberto por uma manta verde. Uma trama de linhas azuis, verdes, marrons, amarelas e rosas, que no fim, visto por cima, é um verde. Uma manta verde que combina com o marrom, com o veludo, com a cor da pele. Parece que há muito mais de não querer do quê do desejar.
Hoje é o dia mais longo do ano; hoje, uma conversa curta pode durar uma infinitude. A estação nova dilatou nossas escamas, ressecou nossas íris, e com o tempo parado, o vento ficou inerte. Hoje, uma conversa não será curta.
Hoje que é hoje; hoje que é ontem; hoje que foi amanhã. Será se… não sei, adiar tem um pouco de não querer.





