Hoje sai com o desejo de praia, mas desconfiança comigo não é pouca, então coloquei o guarda-chuva na mochila. No caminho, a chuva banha a gente de calor, meu braço molhado para fora da janela é o que posso fazer nesse fim de mundo. Nunca mais tomei banho de chuva, os prazeres infantis deixei esquecido na infância mesmo, como lembranças que mais parecem ficção. Nunca joguei carimba, era sempre café com leite, parte de uma plateia invisível. Sinto que havia um senso comum de que não deveria ser machucado, ou então, que não era forte o bastante para levar uma surra, que não aguentaria um choro.
De fato, pouco chorei na vida. 1Tal qual minha mãe, meu choro era desses contido, pra dentro, escondido até de mim. Por muito tempo só lembro de um choro de criança: o dia antes do sete de setembro em que eu desfilaria de monteiro lobato, o menino negro de favela fantasiado de homem branco paulista e eugenista. Tava todo de branco, dos pés a cabeça. Hoje eu diria que mais parecia Zé Pelintra, mas a escola era uma dessas de bairro comandada por um casal de evangélicos e ninguém pegou a semiótica na hora. Meu choro (baixo) foi porquê não eu tinha meias brancas, ou não as encontrava. Chorei novamente já adulto quando minha vó paterna morreu. Pensei por meses em encontrá-la, fazer um filme, deixar a história dela no tempo, mas não deu tempo. Cai copiosamente em choro quando entrei no salão vazio da igreja do seu genro pastor. Tudo branco, poucas cadeiras de plásticos encostadas nas paredes formando um grande círculo, ao centro, seu caixão preenchido com flores brancas, véus e e camadas de tecidos.
Outros choros seguem por ai, na vida adulta, como os de exaustão mental, desilusões amorosas, abandonos afetivos, falta de perspectivas de futuro, trabalho, cansaço e mais cansaços. Hoje desisti da praia e vim para casa, comprei um bolo queijadinha e fiz o novo cartão do metrô. Como sempre, esperei muito tempo pelo ônibus e lembrei que sempre tem uma linha de ônibus para se odiar, independente de onde você mora. Para mim, já foi o 310 e o 243, depois lá longe em outra cidade foram o 304 e 518 , e agora o 362, depois de ter sido os 403, 405, 406, 407… Talvez esse texto seja sobre lembranças, sobre o quanto eu repito a palavra tempo em tudo que faço, sobre como estou caindo em pedaços feito lixo espacial.
Sempre lembro quando cê me falou que “a melhor versão de nós nunca foi na agonia” e eu levei um tempo pra lembrar que era de uma música do Rico, e você riu. E a música continua com “na confusão dos ódios, na distração dos brancos. Cuide!”. 2 Para você de 2020, quero um beijo de despedida longe do nosso labirinto. Sempre acreditei que teria que continuar vivendo entre a pressa e a calma, entre estar acelerado e estar imóvel ao mesmo tempo, mas tenho abandonado essa ideia e seguido apenas quebrado para a frente. Mas cuide!, tenho sempre que lembrar disso para mim mesmo, cuide! Sempre digo em silêncio proteja sua memória, como uma oração silenciosa e seca para o futuro, como se eu tentasse acreditar na fé que eu mesmo não tenho.
É, os nossos traumas deixa a gente com medo de se machucar. O medo faz a gente optar pela partida e não pela acolhida. A partida faz a gente deixar tudo se esvaindo, desmanchando feito sal na água. O silêncio, o silêncio é esse mal que nos absorve. E a gente segue acreditando que o melhor é mesmo ficar calado, não falar nada, deixar tudo ir desaparecendo, não demonstrar interesse, a gente acha que dar o perdido em alguém é suficiente, que é o melhor a se fazer é sumir. No meio do dia, a gente só tem o calor que vem da chuva e deixa a nossa pele impregnada. Não há abraço possível que nos faça fechar os olhos sem pressa de abri-los, sem pressa de acabar, e deixar as batidas do coração sincronizarem. Mas o problema é que eu percebi que o difícil não é nem estar junto, mas sim, tentar estar junto.
(sempre) Nos despedimos sem ser despedida. Mas não farei aqui apologia a cerimoniais de despedidas, tampouco, serei aquele que … é, não sei, talvez eu esteja apenas muito cansado de despedidas incompletas. Para você de 2023, quero te dar um abraço forte e dizer que errei 3 em escolher a distância e não o aperto, como na música do Nego E. Nós somos feitos de despedidas que não foram feitas, apenas desfeitas, somos feitas de tempos dilatados em fuga. Quero olhar nos olhos e sentir que é possível respirar debaixo d’água, que posso entrar no mar sem medo de afundar. Quero andar de olhos fechados dentro de casa e dançar sob o eclipse, te levar comigo em fuga no fim do mundo, no seu futurismo, mesmo que tenhamos que esperar mais quatro, cinco anos.
Cuide, proteja!

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