Viver, viver (ou o dia mais feliz é amanhã)

Eu nunca soube comemorar vitórias. No futebol, o gol é a festa. A festa é a redenção dos aflitos, dos que sofrem por antecipação, dos que esperam pelo cruzamento aos prantos. Chorar faz parte do processo, é o momento em que a prisão da virilidade masculina se esvai, a paixão coletiva ganha força e se transborda em lágrimas. Chorar faz do futebol algo humano e afetivo.

Meu último aniversário foi na pré-adolescência, desde então perdi a vontade do bolo confeitado, do canto em coro, da alegria coletiva na data comemorativa. A folga, o day off, o descanso no meio da semana. Não há nada de novo sob o sol, sob nossas cabeças reina o cansaço, a desesperança. E na minha casa, o futebol nunca fez morada.

Talvez, quem sabe, consiga encontrar um lugar diferente na minha própria casa, tomar o quinto banho do dia e buscar pelo prédio mais distante que eu conseguir enxergar na varanda. Ou a casa mais distante, ou o morro mais distante, ou o fim da avenida, ou aquela mancha escura lá no longe que é a serra de uma outra cidade. Olhar para cantos que você nunca prestou atenção te faz enxergar o mundo doutro jeito e, com o tempo, a gente se acostuma a buscar formas diferentes de comemorar um gol.

Momentos únicos como ir a um show do Oasis, passar num mestrado, ter um filho, aprender a andar de bicicleta, conseguir vender o carro, terminar um casamento, receber os resultados de uma biópsia. Prometi que dessa vez iria comemorar meu aniversário, até fiz uma lista de presença que nunca se efetivou. Os dias passaram e não enviei mensagens para aquelas pessoas que comemorariam comigo a passagem do tempo, a chega do milênio, os fogos de artifícios que explodiriam sobre o bolo de prestígio.

Eu não sei gritar, por extensão, nunca saberei explanar felicidade junto a multidão que grita eufórica por aquele gol. Os gritos ressoam em explosão e eu permaneço em silêncio com o coração apertado. No andar de baixo ao meu, uma família comemora a vitória do seu time, o aniversário da pequena, e o natal familiar. Aquele jogador de sobrenome latino, corte de cabelo ralo e olhos arregalados, parece que ele também não soube comemorar o próprio gol, o primeiro em terras brasilis. Ficou surpreso com o próprio feito, andou desnorteado pelo campo e foi levantado aos céus pelos colegas de time.

Uma plateia silenciosa e invisível te lê numa distância suficiente para te dar sossego. E mesmo que, para você, ninguém te leia, em algum lugar alguém busca por notícias suas. Lá, onde você se esconde, onde se protege, onde se refugia no acalanto do silêncio e na alegria das visitas inconstantes. Lá onde você não se preocupa com a queda do número de visualizações e nem com alguém que deixou de te seguir e não te excluiu como seguidor.

Lá, onde em alguma momento descobriremos como se comemora um gol, como que se chora de alegria, como que se grita e como é que se corre sem parecer um pato em fuga. Um dia saberemos como ficar feliz com a própria felicidade.

Mas beleza, a gente se vê por aí.

  • Viver, viver (ou o dia mais feliz é amanhã)
  • Adiar, às vezes, é não querer
  • Carro branco ou reaprender os verbos
  • eu sou a vírgula do seu carnaval
  • Dormir com uma planta debaixo da rede
  • Finja que não me conhece e recomece tudo, de novo